Arca de Noé

Fui para SP, tirei 4 dias de mini-férias para descanso/passeios. Quando voltei cai numa espiral de trabalhos/prazos apertados que só vai melhorar na semana que vem. Dezembro é assim mesmo, por causa dos recessos e férias coletivas, a gente tem que fazer o trabalho de 30 dias em 15.

Mas no meio disso tudo, aproveitei e deixei rodando enquanto trabalhava a temporada final de Downton Abbey. Alguns momentos foram emocionantes, mas bem menos que outras temporadas. E fiquei achando que o final foi uma grande arca de Noé. Todo mundo se arranjou, arrumou um par, alguns de formas bem forçadas e improváveis. As mudanças que representariam o fim daquele estilo de vida ficaram em segundo plano diante de tantos encontros, flertes, casamentos e filhos. Queria ver como todos aqueles personagens iriam se comportar nas portas da Segunda Guerra Mundial, mas nunca saberemos e nem era o caso. O caso é que tudo muda, mas a mania dos roteiristas de achar que final feliz é arrumar marido ainda não mudou…

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“Seja feliz! Gente feliz não enche o saco!”
Em princípio, essa frase faz todo sentido, mas não é bem assim. Tem gente feliz (ou que se diz feliz) que enche o saco e muito. Com suas dicas incríveis de como alcançar a felicidade, com suas indiretas diretas sobre quem não está lá no alto da Montanha Feliz. A felicidade nos torna imodestos. Chegamos lá e de repente sabemos a receita infalível. Anota aí: é só fazer tudo igualzinho ao que a gente faz. Moleza!
De repente tudo é fácil: emagrecer, trocar de emprego, parar de fumar, casar, separar, quitar o cheque especial, acordar de bom-humor, esquecer as mágoas, os medos, os rancores, as dores. E dá-lhe palpite na vida alheia, dá-lhe dicas para atacar e ticar todos os itens, remover todas as pedras do sapato da vida dos outros. Tudo de cima do pedestal feliz.
É, falta modéstia e sobra presunção. Na felicidade, alguns ficam arrogantes, sabendo todas as respostas. Os insights dos felizes são geniais. Eles sabem como os outros, aqueles que ainda não alcançaram nem sequer o platô da Montanha Feliz, devem proceder. E divulgam a cartilha em tweets, no Facebook, nos álbuns de fotos, nas mesas de bar, em pequenos toques que misturam preocupação com intromissão.
Pessoas infelizes enchem o saco? Enchem sim, porque ninguém quer lidar com o problema do outro, solidariedade mandou beijos. E nos dias de hoje ainda por cima existe a ideia de que o problema dos infelizes é o recalque e a inveja (dos felizes, óbvio!).
Eu já acho que a tristeza nos torna humildes. E humanos. Um lembrete de que não podemos tudo. Atravessando aquela maré de sapo, com muitas portas na cara, sinal sempre fechado e sem créditos no celular, não dá para dizer que a vida é fácil. Ir até a padaria, algo simples para alguns, torna-se infinitamente complicado para outros. O bolo sola, andamos em círculos, não saímos do lugar. E ali, no brejo da tristeza, podemos enxergar os outros muito mais de perto, com mais compreensão. Olhamos pro lado, rimos amarelo e dizemos, amigo, eu sei como é que é, não tá fácil pra ninguém não…

(dez/2013)

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