Tanta coisa para aprender, aprender a impor limites, a dizer não, a delimitar um perímetro, a cortar conversa fiada, a dar um fora em quem é inconveniente, aprender a reclamar, a reivindicar, aprender a brigar... onde ensina?
20/08/2008
12/08/2008
Vai Phelps
Eu aprendi a nadar aos 21 anos, o que considero um verdadeiro recorde mundial.
Aprendi a nadar numa piscina funda, de três metros na parte rasa e quatro e tantos no fundo. Não bastou aprender a nadar, tive que aprender primeiro a não me apavorar. E indo, 25 metros pra lá e 25 metros pra cá, quantas vezes eu me apavorava! Os braços não obedeciam, os pulmões pegavam fogo, as pernas pesavam feito chumbo. Não dava pra pôr o pé no chão. Os 25 metros se transformavam em 25 mil metros que não acabavam nunca.
Cada vez que eu tocava na borda, viva, sentia como se tivesse batido um recorde olímpico! Quando finalmente consegui nadar crawl direitinho, nadar costas rapidamente e nado peito mais ou menos, subi no meu pódio imaginário e coloquei no peito a medalha de ouro.
Por isso me identifico tanto com o Phelps e estou torcendo loucamente para ele ganhar as oito medalha que ele quer. Eu nunca fiz um ippon, nunca fiz um gol, não sei sacar nem bloquear, não dou nem cambalhota, que dirá duplo twist carpado, correr nem pensar. Mas bater a mão na borda da piscina sabendo que mais um limite foi vencido, eu sei bem o que é. Por isso... vai Phelps!!
09/08/2008
Oito do oito de 2008.
Acordei às cinco e meia porque minha mãe já estava acordada, de banho tomado e vestida para sair . Insônia tardia. Nove horas pilates, dez banco. Onze terminar trabalho. Cerimônia de abertura. Para entrar no clima, pedimos comida chinesa que demorou uma hora e dez para chegar. Comemos avidamente, em quinze minutos de silêncio. Juntamos dinheiro para jogar os números dos biscoitos da sorte na megasena. O dia todo teve algo de diferente, algo de extremamente seguro e protetor estava no ar, algo capaz de afastar medos e aflições.
07/08/2008
a história do meu tenis adidas desaparecido
O meu cachorro vai fazer dez anos então essa história começa mais ou menos na mesma época em que ele nasceu. Foi quando eu comprei meu primeiro tênis adidas. Fui, inclusive, calçando esse tênis que busquei meu cachorro lá em Niteroi.
Eu comprei um tênis adidas branco e preto e ele era o tênis mais perfeito do mundo. Um tênis que nunca na sua vida foi lavado, e que de branco, virou cinza. Um tênis que não tinha chulé e no calcanhar tinha uma manchinha de sangue, do dia em que eu o usei sem meia. Era o tênis mais perfeito do mundo, não importava se ele me machucava o calcanhar ou se foi com ele que eu tomei um tombaço numa escada e torci o tornozelo. Aquele tênis era simplesmente o máximo.
Comprei esse adidas logo que comecei a trabalhar. E não entendia como eu podia ter passado a minha vida inteira sem calçar um tênis adidas (entendia sim, precisava ganhar dinheiro para comprar aquela maravilha e só naquele momento eu tinha dinheiro para isso).
Tudo ia bem no planeta do tênis adidas, até o fatídico dia que eu o guardei no quarto de empregada da minha casa. Me arrependo disso amargamente. Mas o que podia fazer: apesar de ser perfeito, eu tinha que usar outros calçados e acabei o colocando lá no quarto de empregada (na verdade, um quarto de tralhas), fora de circulação por um tempo.
Alguns meses depois me deu saudade do meu tênis perfeito, fui buscá-lo e ele não estava mais lá. Perguntei pra minha mãe e ela disse que tinha dado o meu tênis.
Dado para quem?
Pros pobres, pra Igreja, sei lá.
Nem a imagem de alguém todo feliz andando por ai com meu tênis adidas, arrasando com ele nas coreografias no baile funk da comunidade me consolou. Eu queria meu tênis de volta!!
Tenho desgosto até hoje. Desgosto e mágoa no coração. Só porque um tênis tem aspecto sujo, destruído, velho e acabado, ele merece ser doado assim, sem mais nem menos? Ainda mais sem a autorização da legítima dona do calçado? Acho que não. Pelo menos não o meu adidas.
Agora, quase dez anos depois, o resgate de vidas passadas: ganhei, da minha mãe e minha irmã, um outro tênis adidas! Ele é lindo e perfeito, de listras vermelhas dessa vez. Já estou trabalhando para deixá-lo tão sujo quanto o outro e não entendo como pude passar tanto tempo sem calçar um adidas de novo (entendo sim, eu não queria entrar na loja e comprar, queria uma reparação pelo crime hediondo: queria que minha mãe o comprasse para mim! Demorou dez anos, várias menções ao tênis perdido, tentativas de causar remorso, chantagem, ranger dos dentes, choro convulsivo e muito mais).
Já ando por aí feliz com meu adidas. Só falta uma coisa: escrever na sola: Favor não doar, em hipótese nenhuma. Só assim ficarei sossegada e poderei, às vezes, tirar meu adidas do pé.
05/08/2008
Definitivamente, eu não sou mulherzinha. Bocejo imenso diante de maquiagens, blush, batom, rímel, escova, roupa combinando e sei lá mais o que. Eu brinquei de boneca sim, mas hoje não brinco mais. Tem uma frase de alguém famoso que diz mais ou menos que os homens são meninos com brinquedos mais caros. Isso vale para as meninas também, brincam de boneca e depois viram Barbies...
em forma para cantar o hino
As regras escolares, primeira, segunda, terceira, quarta série, etapas a cumprir, itens que você tem que riscar, metas a alcançar. Aprender a ler, escrever, contar. Saber álgebra, geometria, polinômios, fórmulas de Báskara, equação de primeiro grau, segundo grau, análise combinatória...
Cada série um objetivo a ser alcançado, senão é reprovação. Todos os alunos da mesma idade no mesmo ritmo, na mesma sintonia, aprendendo e vivendo tudo igual.
A gente passa tanto tempo nesse sistema, que depois que sai, acha que ele ainda vigora.
Então depois de adultos, estabelecemos metas a cumprir, faculdade, namorado, casamento, emprego, dinheiro, apartamento, filhos, sucesso, família, plástica. E continuamos riscando itens e espiando a prova do colega do lado para ver quanto ele tirou. Morrendo de medo de não cumprir as etapas e acabar reprovado, ficando pra trás...
feirinha do lavradio
02/08/2008
29/07/2008
guerra de bengalas
Copacabana, segunda-feira, meio dia. Estava eu na Suprema, uma loja de massas, comprando nhoque para comer hoje. Uma mocinha almoçava calmamente numa mesa. De repente, adentra o recinto o monstro do lago ness, mentira, entra uma velha que joga sua bolsa, sua sacolinha de exames (aquela que todos os que tem mais de 65 parecem sempre carregar) e outros trambolhos na mesa da mocinha, praticamente dentro do prato da pobre. A moça, educamente, vira para a senhora e pede que ela coloque suas coisas numa outra mesa, existiam várias vazias. Pra quê. A digna senhora pegou as coisas e tacou de novo em cima da mesa com a maior violência, xingando a moça e pior, levantando a bengala para bater na menina. A garota chegou a se encolher. A loja toda, clientes, funcionários, chocados com a explosão. Ai entra em cena o nosso herói, o vovô aposentado. O senhor passou uma descompostura na velhinha, dizendo que ela era muito mal-educada e coisa e tal. A velha reagiu com mais impropérios e já ia levantando a bengala para ameaçar bater nele também quando o vovô aposentado retrucou: não levante a sua bengala para me bater que eu também tenho a minha! Uau, cena inédita, guerra de bengalas!! Dai, a velha apelou para a baixaria e disse: por que está defendendo ela, é sua amante? e o vovô, não é minha filha. A senhora tenha respeito!!
Só sei que a velhota perdeu a graça e ficou falando sozinha que tinha sido operada do joelho e coisa e tal (desde quando problema de saúde justifica falta de educação?) e acabou indo embora porque nem tinha mais clima. Mas antes, ainda rogou uma praga para a moça! Saiu ela, saiu o vovô e esse tempo todo a menina, pivô da confusão, tinha trocado de lugar e tentava acabar de almoçar para voltar para o trabalho. Todos parabenizaram a calma da menina, que em nenhum momento foi grosseira com a senhora. Uma mulher até falou, com esse sangue frio, você pode até trabalhar lá na minha loja, a gente passa por isso todo santo dia.
Só sei que a menina fez bem em não reagir. O único que poderia ter interferido (e o fez) foi o senhor da bengala. Outra pessoa que se metesse, ia acabar levando uma bengalada na cabeça. Aquilo ali era briga de cachorro grande.
25/07/2008
descendo uns três degraus
É incrível como tem gente que dá um poder quase sobrenatural aos outros. O computador pifa, é inveja. O salário atrasou, é porque alguém está te desejando mal. Faltou luz e não deu para entregar o trabalho, a culpa é do mau olhado. O engraçado é que a maioria das pessoas que reclama assim, é bem sucedida, talentosa, mas acredita mesmo, piamente, que é cercada por uma rede de invejosos, que passam o dia costurando a boca do sapo com seu nome dentro. Tão acostumados ao sucesso, a ter tudo e a receber só elogios, algumas pessoas não conseguem ver os problemas como alguma coisa natural. Para elas é anti-natural qualquer empecilho. E o que quer que dê errado só pode ser obra de alguém que não agüentando não ser como elas, lhe deseja todo mal do mundo. Dá para descer uns dois ou três degraus por favor? Dá para deixar de dar poder aos outros e pensar racionalmente que sim, o computador quebra, o salário atrasa, o pneu fura. Nada demais. Com os juros altos e a inflação do jeito eu está, quero saber quem tem tempo para desejar tanto mal aos outros... e se alguém tem toda essa força de pensamento, deve estar utilizando-a para seu próprio beneficio, não é não?
22/07/2008
pega na mentira
Adoro pegar gente mentindo no celular. Não para mim, naturalmente. Mas adoro estar passando pela rua e pegar alguém na mentira, falando no celular. Aquela coisa: tô chegando, tô em Copacabana, e a pessoa ainda está na Lapa. Ou uma mulher que vi na feirinha da Rua do Senado: to aqui no Centro Cultural Banco do Brasil... Dá pra ver a cara de pau atuando sem limites. Mas também, quem manda querer usar celular como GPS, gente que pergunta onde vc está no celular merece sim uma mentirinha.
20/07/2008
Madureira
Ontem fui ao Mercadão de Madureira. Mercado popular do subúrbio carioca, mistura de Saara com feira livre. Fazia tempo que eu não ia em Madureira e devo confessar que tudo continua igual por lá. A Escola Municipal Ministro Edgar Romero, o calçadão de Madureira cheio de lojas e gente, a quadra do Império Serrano, a passarela do viaduto, as ruas maltratadas, as fachadas com pintura gasta, o clima de subúrbio. Tudo igualzinho ao que era quando eu era pequena. Foi reconfortante, como voltar para um lugar bem conhecido.
Uns dias antes, tinha ouvido no ônibus uma conversa entre duas moças dizendo que o mercadão de Madureira tinha sido reformado e estava todo arrumado, com quatro andares! Foi o que bastou para eu querer ir lá! Ontem, fomos de trem, eu e minha mãe, excursionar em Madureira. A viagem de trem por si só já é um barato, as estações vão passando, São Francisco Xavier, Sampaio, Cascadura, Quintino, Engenho Novo, Engenho de Dentro, Piedade, Méier... cada nome delicioso. Um Rio de Janeiro sem árvore, sem mar, sem garota de Ipanema, sem céu azul... mas genuinamente carioca.
Em Madureira, finalmente o mercadão: não tinha quatro andares e sim dois e vi coisas que nunca tinha visto antes! Primeiro as lojas de umbanda: inúmeras lojas com artigos de umbanda e candomblé: louças finíssimas para as comidas dos santos, potes de barro para os despachos, imagens, ferramentas de ferro que são as armas dos santos... e as roupas? Cada roupa linda, saias rodadas, blusas de algodão, saias floridas... uma roupa de mãe de santo, tipo uns trezentos e cinquenta reais. Vi um traje todo azul, bordado, lindíssimo e fiquei pensando se no terreiro existe alguma hieraquia nas roupas, se você pode chegar lá arrassando com uma roupa azul ou se só pessoas importantes no terreiro podem usar.
Além das lojas de candomblé o que eu queria ver eram... os bodes. Eu sabia que no mercado existiam animais vivos para vender e queria ver com meus próprios olhos, mesmo sabendo que ia me sentir mal, tipo curiosidade mórbida infantil que eu sempre tive (em criança, enchi o saco da minha mãe para visitar uma múmia no museu, cheguei lá, passei mal e quase desmaiei). Dessa vez não passei mal mas fiquei triste de ver os bodes, quase cabritinhos lá para vender. Saber que eles vão virar churrasco ou despacho é meio estranho. Além de bodes, tinha todo tipo de animais: galinhas, galos, coelhos, pombas brancas, perus. Mas era um lugar limpo, claro e não tinha cheiro ruim. Imagino se era assim antes da reforma.
No mercadão também tem lojas de artigos para festas, uma área só de ervas, várias lojas com todo tipo de condimento... e um pastel de queijo bem gostoso. Quero voltar para fotografar várias coisas que vi.
De tanto circular só pelo centro e zona sul, a gente esquece que o Rio não é só isso. Quem anda por Ipanema, dificilmente vai adivinhar que existem terreiros de candomblé no Rio, por exemplo. Adorei revisitar Madureira e quero voltar mais: afinal não sou uma garota zona sul, sou 100% suburbana, nascida no Meier!
11/07/2008
anarquia!
Eu não nasci para decorar número da carteira de identidade.
Nem queria ter CPF e título de eleitor.
Tenho raiva de guardar os comprovantes de pagamento de cinco anos atrás.
E o imposto de renda então?
Não me defino por profissão, empresa, contra-cheque,
ideologia, time de futebol, escola de samba ou religião.
Não gosto de cantar o Hino Nacional.
Não leio manual de aparelho, nem regras do jogo.
Não nasci para bater cartão, ter hora para acordar.
Não sei nem o número do meu celular!
09/07/2008
Muito trabalho (ainda bem!).
Mente muito cansada, esquecendo coisas, sem concluir pensamentos.
Minimizando várias janelas na minha cabeça, que se eu deixar todas abertas, vai dar pau no sistema... nervoso.
03/07/2008
a hóspede
Claudia pensou que fosse aproveitar o feriado prolongado para descansar, ver um monte de filmes no DVD e namorar seu marido, Marco Antônio. Mas seus sonhos foram por água abaixo quando ele anunciou que sua mãe, dona Carmela, viria passar o feriado com eles.
Hóspede e parente que é a pior combinação possível. Só fica pior quando o parente em questão é a sogra. Dona Carmela chegou e anunciou que não iria ficar só o feriado: ia ficar 30 dias. Claudia trincou os dentes, inspirou e expirou profundamente, mentalizou o céu azul no alto de uma montanha. Não adiantou nada. Não se passaram dez dias e a pobre Claudia já estava tendo um ataque de nervos.
O problema é o espaço. Hóspede educado não ocupa espaço. Mas dona Carmela, hóspede, parente e sogra, ocupa. Hóspede educado procura se adequar as regras da casa. Dona Carmela quer que sua anfitriã se adeque às suas normas.
Por exemplo. Ontem Claudia passou o aspirador na a casa. A sogra passou de novo. Aliás, ela está sempre limpando t-u-d-o. Outro dia, Claudia acordou às 7 da manhã e dona Carmela estava passando um pano nas pás de um ventilador. Tenha dó.
E ela quer pagar tudo, num nível que beira o constrangimento. Até a compra de mês do supermercado. Além disso, dona Carmela não sai sozinha. Socorro, Claudia grita internamente. Mas não pode gritar, porque Dona Carmela escuta TUDO. Ela pode estar trancada no banheiro mas lá de dentro está ouvindo todas as conversas da casa.
Claudia estava sentada no sofá, ao telefone com uma amiga. Não é que a sogra resolveu varrer debaixo do sofá só para ouvir melhor a conversa? Enlouquecedor.
E o marido nisso tudo? Só sabe dizer, coitada da minha mãe, ela é sozinha...
Dona Carmela altera a rotina da casa. Ela toma partido do filho, critica a comida, a roupa, a casa e principalmente: não vai embora.
Vinte dias de suplício pela frente. Claudia pensa numa solução. E logo começa a colocar idéias na cabeça da sogra. Primeiro, como quem não quer nada comenta de uns conhecidos que foram viajar e quando voltaram, encontraram a casa toda revirada. Assalto.
No dia seguinte, conta que a previsão do tempo anunciou, para a cidade de dona Carmela, uma chuva de meteoros... já pensou que cai algum no quintal?
Depois, comenta que viu na TV que está tendo uma praga de formigas-cupins na região, uma nova espécie transgênica que come até cimento. Diz que um chegou em casa e ela tinha virado pó.
Cada dia inventava uma tragédia diferente que poderia acontecer com a casa da sogra, caso ela não voltasse logo para cuidar do que era seu. Claudia tinha esperança que se bombardeasse a sogra de informações, ela adiantaria a volta, por pura paranóia. Então falava de alagamentos, tempestades de areia, tsunamis, construção de hidrelétrica fictícia, praga de caramujos... até disse que ela corria o risco de chegar em casa e encontrar o MST lá, já que o imóvel estava quase abandonado.
A sogra escutava tudo e tadinha, caía como um patinho nas histórias estapafúrdias que a nora inventava. A paranóia começou a funcionar e ela estava seriamente preocupada com sua casinha.
Um dia, na hora do jantar, ela anunciou para o filho e a nora que ia antecipar a volta, partindo no dia seguinte. Claudia mal pôde conter a vontade de se pendurar no lustre para comemorar mas Marco Antonio, aquele bebê chorão, perguntou: mas já mamãe?
Dona Carmela respondeu que estava preocupadíssima com a casa, que estava com medo dela ser invadida pelo MST, atacada por alienígenas, comida por formigas mutantes e transportadas por lesmas para outro lote. E que tinha pensado muito e resolvido voltar mais cedo para vender aquilo tudo, afinal só dava dor de cabeça e preocupação. Se livrando da casa, ficava livre de qualquer problema que acontecesse. Assim, podia voltar sossegada e ficar o tempo todo do mundo ali, com eles, sem preocupações. Afinal, na casa onde Claudia e Marco Antônio moravam não tinha problema nenhum, nem chuva de meteoros, nem acidente atômico muito menos tempestade de gafanhotos...
O único problema que tinha por ali, pensou Claudia com um suspiro, era invasão de sogra abelhuda. O tiro tinha saído pela culatra.
30/06/2008
uma pessoa que eu conheço
Eu conheço uma pessoa que tinha uma vizinha super grosseira. Aquele tipo de vizinha que xinga palavrões quando estoura o vazamento no banheiro. O tipo de vizinha que não dá nem bom dia para as pessoas, de quem ninguém gosta, o tipo de vizinha que vive reclamando.
Essa pessoa que eu conheço, precisava de um favor dessa vizinha, que ela abrisse um espaço na sua agenda para que ela pudesse fazer um conserto que envolveria os dois apartamentos. O favor era ela deixar o pedreiro entrar no apartamento por um curto espaço de tempo. Se ela não cedesse esse tempo, a pessoa que eu conheço não poderia ligar a água, lavar roupa e fazer um monte de coisas. Tudo dependia da boa vontade da vizinha. Só que ela não tinha boa vontade. Durante muitos dias, ela não encontrava um tempo para o pedreiro fazer o conserto. Sempre tinha que sair ou dava qualquer outra desculpa. Claramente se via que ela não colaborava de propósito. De tão acostumada a ser espírito de porco. É tão difícil depender de alguém! A pessoa que eu conheço, sofria com a situação e se irritou sério com a vizinha, discutiram até. Mas no dia seguinte, essa pessoa que eu conheço foi a uma loja e comprou um super presente para a vizinha. Que o recebeu, é claro, com absoluta surpresa e total constrangimento. E a pessoa que eu conheço ainda pediu desculpas pela discussão, mas explicou, pela milionésima vez o quanto dependia da vizinha para resolver aquele problema. Um tempinho depois, a vizinha deixou o pedreiro entrar, tudo se resolveu.
Hoje, a vizinha continua não dando bom dia, continua andando com a cara fechada por ai. Mas agora se comunica mais educadamente com essa pessoa que eu conheço. Consegue dialogar e não resolver as coisas na base de gritos e má vontade. Um gesto de gentileza (com que sabia que não merecia nenhum) causou a mudança, mínima, mas para melhor.
Essa pessoa que eu conheço, nem preciso dizer, não é Gandhi, Madre Tereza, Mandela nem Dalai Lama. É a minha mãe.
celebridade
O que você faz, aonde vai, o que tem, ou quem é, com todas as letras e detalhes, fotos e flagrantes realmente interessa a alguém?
Sua foto na revista interessa? Quem casou, quem roubou, quem mentiu, quem flagrou? O que interessa o que ganhou ou deu? O que fez, o que comeu, se brigou ou se aborreceu? De nada vale tanta informação.
Pois seu eu não dou conta dos mistérios da minha vida, o que dirá da dos outros... Eu sei mais do que preciso. Eu sei tudo de você, só não sei quem você é e nunca vou saber. Só sei que não me interessa saber de cada segundo seu, seus passos, seu coração, sua horas, sua razão. O que você não quer mostrar é o que mais aparecerá.
Eu cansei de ver tanta perfeição. Não quero saber do seu estado de felicidade eufórica, nem do seu mau humor total. Esse jogo de mostrar e esconder revela o medo, tornar palpável, tornar real, tornar visível, tornar banal.
28/06/2008
Atopia é um distúrbio orgânico de hipersensibilidade à diversos fatores ambientais, tendo caráter genético - porém, nem sempre hereditário. Existem diversas doenças atópicas como a asma brônquica, rinite alérgica, dermatite atópica, conjuntivite alérgica, síndrome da hipereosinofilia e alergias alimentares. A maioria dos indíviduos com atopia apresentam uma hiperprodução de imuglobulina do tipo E. (wikipedia)
Finalmente encontrei uma veterinária que me explicou exatamente o que o Ulisses tem. Esse negócio de atopia ai. Ele é super alérgico e piora quando está estressado. E ele não dá conta de combater sozinho a alergia. Ai se lambe, se coça, se estressa, se lambe, se coça num looping infinito... Os remédios de alergia já não funcionavam mais, a ração especial que ele come não adiantava também. Ai eu fui nessa veterinária e ela começou um tratamento com antibiótico e antialérgicos combinados, primeiramente para tratar a crise já instalada. Outros veterinários já passaram um tratamento similar para ele: mas a diferença que essa médica disse que nao adianta tratar e medicar só na crise. Ele vai ter que tomar esses remédios sempre. Em doses profiláticas, mas vai. Estou topando qualquer negócio para que ele pare de se coçar: afeta muito a qualidade de vida dele, o bichinho nao consegue descansar. Por ora, está dando certo. E a vet ainda mandou fazer um shampoo especial na fármacia de manipulação... vou te contar que nunca lavei meu cabelo com um shampoo tão chique quanto o dele... mas ele merece.
(o nome faz o cachorro ou o cachorro faz o nome, porque Ulisses em grego significa “o irritado”, né?
Fui a uma festa junina aqui perto de casa. O cachorro-quente não estava aquelas coisas, mas a quadrilha de crianças estava linda! As meninas dançando tudo certinho, os meninos arrepiando, mudando a coreografia, fazendo uma danças malucas... meio forró, meio pagode, totalmente pós-moderno. Meninas de camiseta e saia de chita, um cinto de fitas. Os meninos de calça jeans, camisa de chita, chapéu e óculos escuros: uma graça.
27/06/2008
diga 33
Nesta semana eu fiz 33 anos. Idade de Cristo, aquela coisa que se canta no bingo. Deve ser a idade da ressureição mesmo, idade de nascer de novo de vários sentidos. Avaliando muitas coisas, sinto que cumpri muitas "missões" durante esse tempo, sinto que faço algumas coisas nessa vida que sou destinada a fazer, que são o meu papel, minha meta. Tenho pensando bastante no meu lugar no mundo, no que estou fazendo aqui e o que devo fazer daqui para frente. Texto confuso, mas ao mesmo tempo, bem claro para mim.
25/06/2008
se a prefeitura não faz, a moda faz
Quando eu ainda estava na faculdade, eu estagiava em Copacabana. Um dia, fui ao banco fazer uma coisa super relevante para o meu chefe: pagar o carnê da faculdade do filho dele. Quando saí do banco, uma tempestade desabou, chovia e da Ladeira dos Tabajaras, começou a descer uma água imunda, tipo cachoeira. Era época daquele Riocidade, todas as calçadas da cidade estavam em obras, a Nossa Senhora de Copacabana foi enchendo, garrafas pet boiando na água marrom e eu lá no meio, tentando voltar ao escritório. Era fim de tarde, cheguei lá encharcada, mas eu sabia que aquilo ali só ia piorar, peguei a minhas coisas e entrei no primeiro ônibus que passava pela rua.
De Copacabana à rua Mem de Sá, onde eu saltaria para andar o resto até em casa eu levei aproximadamente seis horas. Ônibus cheio, um pacote pela metade de biscoito chocolate, trânsito completamente parado, chuva que não parava e pessoas estranhas se tornando amigos rapidamente naquele clima de fim do mundo.
Quando saltei na Rua Mem de Sá, saltei num mar de água que chegava nos meus joelhos. Água marrom, nojenta (ali perto fica o IML, imaginem o nojo da pessoa). Medo de tomar choque, medo de cair no bueiro, medo de confraternizar com a leptospirose... cheguei em casa exausta, passei álcool nas pernas, quase joguei fora o tênis e a calça jeans.
Só estou contando essa história triste porque isso ainda pode acontecer: as ruas cheias de lixo, a calçadas com buracos, a cidade que não é preparada para chuva. Mas, se a prefeitura não faz nada, faço eu: é por isso que comprei minhas galochas! Quem me vê de galochas de oncinha por ai, ou mesmo com a versão mais básica, galochas marrons que comprei na melissa, pode pensar que é tudo muito esquisito ou que sou uma vítima da moda. Não sou. Sou é vítima de um trauma com alagamentos. Então vocês não sabem a felicidade que é sair por ai, de galochas na chuva, meus pés protegidos de todas as poças!! E viva o estilista que resolveu lançar essa moda!
19/06/2008
coisas ouvidas por aí...
Trocadora de ônibus, ao passar em frente ao Hospital do Câncer:
“Meu avô morreu disso, meu pai morreu disso, minha mãe morreu disso, minha tia morreu disso. Sem neurose, sem neurose, sem neurose, sem neurose. Eu apenas fico ligada.” (parecia aquele personagem da peça Cócegas)
“Tá descontrolado hein! – e virando-se para mim – ele tá garrado com o maltine desde ontem, já tomou três! Tá garrado com o maltine!”
Mesma cabeleireira:
“Hum, me deu vontade de comer um pastel de carne e encher de molho de pimenta, que chego a salivar... sabe o que eu vou fazer? Vou pegar um pedacinho de pão e comer com molho de pimenta porque você sabe né, o organismo é burro, é fácil enganar ele.”
E não é que ela está certa?
Você vai ao salão, fica sabendo histórias sobre o rato de estimação de um, conselhos sobre planos de saúde em oposição ao hospital público (o hospital público é melhor, os médicos são mais preparados e não ficam enrolando para você marcar outra consulta), aprende a fazer um aplique, descobre a quantas andam os preços dos aluguéis no centro e ainda vê na Caras a Arlete Salles de biquíni.
17/06/2008
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais
Um dia você é jovem e acredita em tudo: igualdade, fraternidade, liberdade. Você não tem preconceitos, nem de classe social, nem de opção sexual, nem religiosos. Você acredita que a desigualdade social é o maior problema do mundo. Você tem toda a ingenuidade do mundo, não tem medo de nada e tem todas as esperanças num mundo melhor.
Ai você começa a crescer e vê que não é bem assim... ai vive mais um pouquinho e se dá conta que nada é bem assim mesmo. E ai sua ingenuidade vira cinismo, sua esperança vai minguando e seu medo aumenta exponencialmente a cada chamada do Jornal Nacional.
Você continua com seus valores, igualdade, fraternidade, liberdade, sem preconceitos contra ninguém... mas agora tem um mas, pois a vida não é bem assim. Quer dizer, você continua com seus valores, mas com restrições, porque o mundo não ta bolinho não.
O mundo lá fora é só guerra, fome, corrupção. Onde o mundo vai parar? Que mundo é esse, minha gente? Mundo imundo.
No meio disso tudo, você forma sua família. Um mundinho lindo e perfeito, um sonho realizado, renovação de esperanças.
Mais do que nunca, você tem que tomar cuidado com o mundo. Afinal, você tem um filho pra proteger. E você quer pro seu filho uma vida mil vezes melhor que a sua. E pra isso, você trabalha mais, para poder proteger seu filho. Você muda pro condomínio que é mais seguro. Você coloca na melhor escola, freqüentada pelas melhores famílias. Você trabalha até não poder mais para pagar a melhor escola. E nessa escola, privilegiada, seu filho é um privilegiado. Lá não tem sujeira, tem todos os professores, tem computador, um pra cada aluno. Não nem pobre, não tem negros, não tem ninguém diferente. E ele vai aprender tudo o que precisa para ter um futuro brilhante, passando no vestibular da universidade pública sem cotas. E pra pagar tudo isso, você trabalha tanto, mas tanto que não tem chance nem tempo de passar pro seus filho seus valores, lembra deles?, você acaba esquecendo, até porque, sei lá, quais são os seus valores mesmo? Nem lembra mais. Tudo o que você sabe é que o mundo está perdido e salva-se quem puder. E toca trabalhar.
E as coisas vão nesse ritmo e você nunca chega a perceber que é você que alimenta a desigualdade, é que aumenta o abismo entre as pessoas, que é você que alimenta os preconceitos, os medos. Você nem chega a perceber o quão facilmente, em nome de sua segurança, você esquece no que acredita. Você não se dá conta que esse mundo que você abomina é também seu mundo, é você. Você nem percebe, que ao querer uma vida melhor pro seu filho, você esquece de construir uma vida melhor pro seu filho.
15/06/2008
anotações reunidas
Tudo parado
Meu projeto de abrir um sebo virtual – parado
Uns textos ai que estava escrevendo- parados
Layout novo para o blog – parado
Leituras – paradas
....
Aquela coisa, todo mundo parece fazer algum trabalho criativo enquanto eu estou aqui, lotada em trabalho cansativo.
....
Tenho tantos desejos de consumo que cheguei a me assustar: anel, mesa digitalizadora, livros, bolsas, vestidos, brinquedos, DVDs, tênis adidas, mesa de corte para costura, etc, etc.
Muita bobagem, que vou querendo sem pensar. E muitos hobbies, muitas ocupações que só enchem a minha cabeça e esvaziam meu bolso. Livros que se acumulam, tecidos que não são costurados, desenhos que nunca vão sair da minha cabeça. Nada concluído, fica tudo pela metade, ocupando tempo e espaço.
....
Tenho que deixar o mundo para lá, parar de querer trazer o mundo para dentro de mim. Ficar quieta, fazer uma coisa de cada vez, sem sofrer, sem cobranças... sem complicações.
09/06/2008
mais museus menos shoppings
Fui ao CCBB ver a exposição do Japão. Como disse abaixo, cada coisa mais linda. As ikebanas, os origamis, a moda, a porcelana, os quimonos, as espadas... sem contar com as pipas e as lanternas. Lindeza atrás de lindeza. Passeando pelos corredores me alimentei de tudo aquilo e sai de lá satisfeita, de olhos descansados e de cabeça tranquila. Visitar um museu é tão diferente de bater perna no shopping. No shopping, depois de olhar vitrines e vitrines de coisas bonitas (e feias também), ninguém se sente saciado. Ficamos com fome, fome de consumo. Vontade de ter aquelas coisas todas. No lugar de tranquilidade, ansiedade. No museu, apesar dos objetos serem muito mais lindos e valiosos, não existe a vontade de possuir, apenas a de admirar. O museu descansa a alma, o shopping cansa o bolso. A arte alimenta, o consumismo dá fome. Deveriam existir mais museus e menos shoppings por aí...
05/06/2008
exposição CCBB Japão
31/05/2008
Não quero ser João Gilberto
Passei quase 10 dias com um terçol horrível no olho, e por isso, sai muito pouco de casa. Então teve um dia em que eu já estava melhor, que sai no fim da tarde para comprar pão na padaria. Acabei pedindo um suco de laranja e estava bebendo no balcão quando dois travestis apareceram e pediram quatro pães com ovo e duas médias grandes. Eles podem enganar qualquer homem, mas nenhuma menina traça dois pães com ovo e uma média grande assim impunemente. Make-up de mulher com apetite de homem. Pois bem, elas conversavam e uma estava muito preocupada, pois teria que fazer uma viagem mas não queria deixar para trás nem a mãe nem a amiga. Achei fofo. Achei que existem histórias interessantes acontecendo por ai.
Voltei para casa pensando que deveria sair mais de casa todos os dias, que deveria ver sempre coisas e pessoas e escrever sobre tudo isso.
Ai no dia seguinte eu sai de casa para buscar um trabalho e peguei um táxi na volta. O taxista altamente deprimido. Meu humor também não estava dos melhores e passamos a viagem toda reclamando, primeiro do trânsito, cada vez pior, não falta muito para ficar igual a São Paulo, depois da violência no trânsito, de todos os acidentes, assalto, brigas, mortes que acontecem, depois da falta de educação das pessoas, do lixo na rua, dos estudantes que gritam nos ônibus, da polícia que só quer receber propina, para concluirmos que o mundo está perdido e que Deus deve estar muito triste (palavras dele).
Ai no dia seguinte, numa farmácia, encontro os funcionários conversando enquanto pago minhas compras. Um rapaz contava que tinha um irmão gêmeo e que suspeitava que ele fosse gay. E dizia que o pai preferiria que ele fosse bandido ou polícia, qualquer coisa menos “isso”. E que ele, também deixaria de falar com o irmão, se ele fosse mesmo gay. As meninas da farmácia ficaram chocadas e uma delas falou: “seu racista”. O rapaz a corrigiu, falando com orgulho: “não sou racista, sou homofóbico”. Nessa hora eu sai da farmácia.
No dia seguinte, pego um ônibus e o motorista bate um papo descontraído com um passageiro, que deve ser conhecido dele. Ele começa a falar dos filhos e diz que o novo marido de sua ex-mulher quis vender o computador que ele deu para o filho e fez mais: bateu no menino, na barriga, dando chutes. A mãe defendeu o novo marido dizendo que era uma brincadeira de luta. O pai foi lá tirar satisfações e segundo ele, bateu no cara, que o ameaçou com uma arma e o fez chamar a polícia. Contava tudo isso como quem contava vantagem.
Cada dia que eu saia de casa procurando uma pessoa, uma história só encontrava esse tipo de coisa. Sinais de depressão, intolerância, violência, palavras mal proferidas, ignorância... fiquei me perguntando que mundo é esse, onde vamos parar, essa lenga lenga toda que não leva a lugar nenhum. Nesse meio tempo eu reli algo sobre a vida do João Gilberto, que ele mora num apart no Leblon, quase nunca sai de lá, que vive de pijamas, que pede comida num restaurante próximo e que deixam a quentinha na porta, que ele nem fala com o pessoal do hotel e fala com as pessoas só por telefone. Juro que pensei: putz, eu quero ser João Gilberto, ficar em casa de pijamas, comendo meu filé com fritas em paz. Mas nem dá, entre outros motivos, eu não sou um gênio musical.
Então hoje eu sai de casa de novo, para comprar umas coisas para o almoço que eu ia fazer para minha mãe (penne à primavera, a quem interessar possa) e encarei um supermercado cheio, bem cheio, com filas imensas. Estava na fila quando me aparece um garoto com um carrinho perguntando se eu não poderia comprar uma cesta básica para ele. Olho para seu carrinho: quatro latas de óleo, dez quilos de arroz, três de feijão, quatro latas de leite, três quilos de café, três quilos de açúcar. No inicio, não entendi o que ele queria e disse que não tinha dinheiro, que ia pagar minhas compras com cartão. Ai ele explicou que não queria dinheiro, queria ver seu não poderia comprar a cesta básica para ele. Ai eu disse que podia. Disse que se chamava Felipe, tinha quinze anos, estava na sexta série, era da igreja batista, morava no morro da providência, tinha cinco irmãos. Não era menino de rua, sua mãe pediu que ele tomasse um banho e vestisse uma roupa limpa antes de sair de casa para pedir. Antes de mim, ele pediu para duas pessoas. Conseguiu oito reais. Passei minhas compras e as dele, ele agradeceu, me deu o telefone do pastor dele e até me convidou para ir à casa dele um dia. A gente sempre fica desconfiada de histórias mas eu ponderei que aquilo que ele me pedia era somente comida: ele não poderia fazer nada além de comer aquilo ali. No fim das contas, mesmo que a história dele fosse outra, alguém ia comer aquela comida.
Essa é uma parte da história. A outra parte é que a fila atrás de mim, ficou revoltada. Tudo porque, na interpretação deles, o garoto estava furando fila, estava passando na frente deles com suas compras. Ouvi o murmúrio de reclamação e ouvi um dizendo que não podiam reclamar porque eu ia dizer que estava pagando por todas as compras (o que mostra que eles entenderam que o menino não pediu para passar na frente da fila, simplesmente pediu que eu pagasse suas compras). Mas as reclamações continuavam, num tom alto o suficiente que eu pudesse escutar, mas baixo o suficiente para mostrar que eles estavam reclamando entre si, não comigo. Uma até chegou a dizer a clássica frase “por isso que o Brasil não vai pra frente”. O tempo todo eu passava as compras e nenhuma vez sequer eu olhei para trás para olhar para aquelas pessoas e seu burburinho. Total e absoluto desprezo por elas. Naquele momento elas não existiam. Porque eles viram a história e optaram por olhar o lado ruim dela, a fila ia demorar mais, o quê, uns cinco minutos? Optaram por ter um motivo para reclamar e não tiveram nem a coragem de reclamar diretamente. Fizeram isso, literalmente pelas minhas costas. Não vou entrar no mérito da falta de caridade, porque cada um ajuda quem quer e como pode. O menino pediu ajuda a mim, e eu ajudei. Nunca imaginei que passar mais alguns produtos fosse causar tanta mesquinharia.
Mas o episódio me ensinou que eu posso ignorar, fazer desaparecer essas pessoas: as pessoas mesquinhas da fila, arrotando direitos em voz baixa, o irmão homofóbico, o pai violento que acha que está fazendo o certo, mostrando que as coisas se resolvem na porrada, os mal-educados, o trânsito ruim, a falta de educação. Posso virar às costas a tudo isso, e talvez olhando para a frente eu possa ver coisas legais, como um filho preocupado com a mãe e o amigo ou um menino pobre que com toda a dignidade teve coragem de chegar em alguém e pedir ajuda.
Não quero ser João Gilberto, apesar de adorar vestir meus pijamas. Quero sair de casa e ver pessoas e histórias e escrever sobre elas.
27/05/2008
pensam que eu sou boba...
Recebo vários spams que são vírus descarados:
Tem o clássico "você recebeu um cartão virtual", tem o "oi amiga, cheguei agorinha, mas já baixei as fotos", tem o "fotos do seu namorado te traindo".
Tem os bancários: email da Caixa dizendo que meu cartão será bloqueado se eu não fizer o cadastro clicando aqui, tem o CPF cancelado, tem o aumento no limite do Visa, tem o empréstimo autorizado...
Agora dei para receber os spams judiciais: convocações para audiências onde eu tenho que clicar não sei onde para ver o andamento do processo.
Hoje eu recebi um email dos correios dizendo "chegou um telegrama para você" com um botãozinho "clique aqui para ler eu telegrama".
Gente, será que tem gente que ainda cai nessas histórias? Sendo que a maioria tem erros de português gritantes?
15/05/2008
Outro dia entrou no ônibus em que eu estava, um garoto de uns quatorze anos que vinha com uma sacola de loja esportiva nas mãos. Sentou do meu lado e tirou de dentro da sacola uma caixa de sapato com um par de chuteiras dentro. Ele pegou um pé, olhou, passou a mão, cheirou e começou a colocar o cadarço com o maior capricho. Depois tirou da bolsa um pacote com as caneleiras, abriu, viu como eram e depois guardou de novo. Eu até quis perguntar se ele estava entrando em uma escolinha de futebol ou coisa parecida, mas é claro que não tive coragem. Não quis me intrometer no sonho dele. Espero que ele seja feliz, jogando futebol de chuteiras e caneleiras novas por aí. Às vezes, tudo o que a gente precisa é tão pouco, tão simples. Pena é que depois a gente acaba querendo mais. Daqui a pouco uma chuteira não é mais suficiente: é preciso uma Ferrari, um salário milionário, uma noiva a tiracolo e três travestis...
13/05/2008
minhas galochas
Apesar do meu trauma de paquita eu não resisti e comprei... não uma bota, mas uma galocha!! Uma galocha de oncinhas!! Estava completamente fissurada por elas. Sei que não vão combinar com as minhas roupas e que só porque eu comprei, nunca mais vai chover messa terra, mas eu precisava delas! Agora posso trabalhar em paz, sabendo que elas são minhas! Não vejo a hora de pular várias poças d'água com elas (até parece!)
(fim do meu momento becky bloom)
09/05/2008
histórias para o dia das mães II
Dessa eu não lembro, mas minha mãe me contou...
Ano passado, fomos andar de bicicleta em Paquetá: assim que a barca atracou na ilha, minha mãe apontou para um botequim e disse: Olha ali, foi naquele bar que seu pai brigou comigo depois que me joguei na água para salvar sua irmã!
Que Pedra da Moreninha que nada, o verdadeiro ponto turístico de Paquetá é o boteco!
Um dia, quando minha irmã mais velha era bem pequena, saíram todos para passear em Paquetá: minha mãe, meu pai, minha irmã, minha tia Nenete e eu, menor ainda que nem lembro de nada. Além disso também foram uns amigos do meu pai. Pois bem, lá pelas tantas, todo mundo tirando fotografias... E naquela de "vai mais para trás" para enquadrar todos numa foto, minha irmã Lucinha, acabou caindo do cais. Caindo na água! Claro que minha super mãe, caiu atrás, e mesmo sem saber nadar, salvou a filha.
Só sei que foi uma confusão, e é claro, minha mãe estragou roupa, cabelo, sapato. E meu pai, no lugar de valorizá-la, achou que ela tinha pago um mico, que estava fazendo ele passar vergonha na frente dos amigos. Vê se pode! Só sei que foi uma confusão, um bate-boca, minha tia se meteu, e elas voltaram mais cedo com as crianças, largando meu pai em Paquetá.
Putz, o que ele queria que ela fizesse? Super mãe é assim, se joga no mar, enfrenta cobra, faz o que precisa fazer por um filho.
Só sei que como lhe é peculiar, ela contou essa história, sem mágoa nem raiva, mas com a gaiatice de sempre. E o boteco do barraco em Paquetá virou ponto turístico para nós.
(minha mãe, em Paquetá, 2007)
histórias para o dia das mães I
Eu não sou muito de datas, mas vou aproveitar o momento para contar mais uma história da minha super mãe:
Quando éramos pequenas, antes de nos mudarmos para esse apartamento em que moramos até hoje, passamos dois meses morando numa casa super velha, onde minha mãe tinha morado quando pequena. A casa estava caindo aos pedaços, o terreno em volta meio abandonado, tinha um jardim na frente cheio de plantas que estavam fora de controle, o quintal atrás com entulho de obras, um caos. O bairro era muito pobre, a rua sem calçamento, enfim, a situação não era fácil.
Eu tinha menos de seis anos e me lembro claramente do dia em que minha mãe achou uma cobra dentro da casa. Na verdade, era um filhote de cobra, que ela, com um metro e meio de altura e coragem de mãe, matou. E ficou como louca revirando a casa inteira, seguindo o raciocínio de: onde tem filhote, tem mãe. Me lembro dela afastando todos os móveis, olhando debaixo das camas, revirando tudo. Não encontrou nada, ainda bem! Só sei que se chegou a conclusão que o entulho dos fundos, onde tinham telhas e outras coisas, poderia ser um ninho perfeito para cobras.
Passado o susto, sempre que eu andava de bicicleta (de rodinhas!) no quintal, dava meia volta antes de chegar nos fundos, com medo da cobra.
Sempre imaginei essa cobra-mãe grande e preta, uma anaconda enorme (antes de ver qualquer filme). E sempre achei que ela nunca foi encontrada porque fugiu de medo da minha mãe, que, portando uma vassoura numa mão e uma pé de sandália na outra devia assustar qualquer fera que ousasse invadir o território de suas filhas.
Com mãe não se brinca, e acho que até cobra sabia disso...
ps. eu morro de medo de cobras até hoje.
07/05/2008
quem mandou comprar?
Hoje, vendi meu notebook velho pro ferro-velho dos notebooks: 50,00. Animada em me livrar de algo que não tinha jeito nem conserto e só ocupava espaço, pensei em me livrar também de outras tranqueiras que andam por aqui: uns dois celulares e três palmtops antigos que morreram e seus acessórios. Entro no site da Siemens e não vejo em lugar nenhum um telefone ou um contato onde eu possa perguntar como descartar conscientemente os aparelhos. No site da Palm a mesma coisa, nenhum contato. Na hora de comprar, a gente não pensa nisso. Onde descartar nosso lixo eletrônico. Acho que vou deixar essas tranqueiras aqui, bem na minha frente, que é para eu lembrar de largar de me impressionar com essas tecnologias e lembrar que no fim das contas, tudo vira lixo.
04/05/2008
trauma de paquita
Todo ano, andando pelas ruas ou percorrendo os corredores dos shoppings, eu pergunto a mim mesma: será esse o ano em que você sucumbirá e comprará uma bota de cano alto?
Veja bem, eu acho lindo, acho elegante e europeu... nos outros. Nas vitrines elas são lindas, nas modelos das revistas ficam fenomenais, nas atrizes das novelas, um espetáculo. Mas na vida real, as mulheres que eu vejo usando botas de cano alto com vestidos, parecem umas paquitas velhas. E eu tenho trauma de paquita. De modo que não vai ser esse ano que cairei na tentação fashionista e comprarei botas.









