Ontem fui ao CCBB. Começar a semana vendo pouquinho de beleza para energizar. Fui ao banheiro antes da exposição e vi uma mulher escovando os dentes no banheiro. Nada de mais, a não ser pelo fato que ela colocava o sabão líquido da pia na escova. Ela escovava com cuidado e volta e meia colocava mais sabão. Magra, maltratada, mas roupas estavam limpas e aos seus pés duas sacolas cheias, estufadas de coisas.
Fui ver a exposição e na volta voltei ao banheiro. Ela continuava lá, dessa vez, trançando os cabelos. Bem tranquila, como se tivesse todo tempo do mundo. Talvez tenha mesmo.
Talvez ela precise preencher seus dias sem ter onde ficar. E talvez aquele banheiro no CCBB seja um lugar seguro para ela ficar por algum tempo. Talvez os funcionários não se importem e nem a coloquem para fora, como vemos tantos lugares fazerem com pessoas indesejadas.
Penso na Biblioteca Parque fechada. Um refúgio para tanta gente, inclusive para quem não tinha para onde ir. O dia é longo para quem não tem casa. Se você mora na rua como você faz para tomar banho, ir ao banheiro, escovar os dentes? Como você mantém o mínimo de dignidade?
A exposição era linda, mas a imagem que ficou foi dessa mulher, tentando se cuidar no meio da precariedade. Nunca imaginei alguém escovando os dentes com sabão líquido por falta de pasta de dente. Mas existe. Todo mundo está lutando sua própria luta e fazendo o melhor que pode. Fora da bolha é uma vastidão sem tamanho.

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É proibido falar de privilégio

Você gosta de pensar que tudo vem

Do seu talento, beleza, carisma

Trabalho duro

que você faz sentado num travesseiro de plumas

Mas falar isso é injusto e te deixa desconfortável

Desmerece a sua *luta*

fere susceptibilidades

Não queremos chatear quem teve uma estrada tão plana para trilhar

Não queremos aborrecer você que vai negar sempre

que tudo caiu do céu

Você sempre vai dizer com muito orgulho

Que batalhou sim muito por tudo

Que ralou desde cedo

E se esforçou bastante

E foi por isso que a sorte lhe sorriu

E as portas se abriram

E não porque tudo é mesmo mais fácil para você

E na sua pressa de ir em frente e vencer

Você nunca olhou para trás

E foi pegando pelo caminho

Tudo que achava que era seu

Com tanta naturalidade

Mas não podemos falar de privilégio

Pois isso chateia

Os privilegiados

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não compre, adote

É incrível que mesmo a gente repetindo: não compre, adote, mesmo com informações sobre o sofrimento das matrizes nesses canis da vida, mesmo com campanhas de adoção, a cultura de comprar cachorro ainda seja tão forte. Não percebia isso com tanta força quando morava em Santa Teresa, mas aqui na zona Sul, nos calçadões e pracinhas, dá para perceber até qual é o cachorro do momento e que os bichos são objetos de consumo mesmo. Quando me mudei pra cá, há quase 4 anos, parecia que tinha chegado um caminhão de whippets no mercado. Eram tantos magrelos desfilando e todos tinham uma característica em comum: os donos não deixavam os cachorros se aproximarem de outros cães. Esses donos pareciam pais de primeira viagem que não sabiam agir com seus cães e tinham medo dos outros cachorros. Triste é que hoje em dia não vejo mais nenhum passeando por aqui, fico imaginando onde foram parar. Deixaram se ser interessantes? Depois foi a vez do carregamento de buldogues. Tadinhos! Sempre resfolegando, balançando o corpinho roliço pra lá e pra cá, sempre sendo apertados, chamados de fofos, passando calor, com coleiras de marca e donos estilosos, posando para o instagram, sem saber muito bem onde estão, como e porquê. E a cada cruzamento, cada vez com mais problemas de saúde, cada vez mais frágeis, cada vez mais sofridos. Claro que sempre tem oferta e procura de labradores e pitbulls. E até outro dia vi um cara se gabando de seu cachorro exclusivo, um cruzamento de buldogue com pitbull. Ele chamou de “nova raça” todo orgulhoso. Arght. Hoje passeando no calçadão, descobri o cachorro que bombou no verão. A quantidade de Lulus da Pomerânia desfilando por aí é surreal. Qual será o cachorro do outono/inverno? Quando será que vamos deixar de ver os cães como objetos que precisam “combinar” com o estilo dos donos, quando vamos deixar de ter cachorros por status ou moda? Ainda bem que tenho duas vira-latas. Para mim elas vão ser sempre tendência.

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Apanhado de assuntos

No Carnaval em todos os cantos o grito geral foi Fora Temer.
Desconfio que até quem bateu panela gritou, acostumados a ir na onda das modinhas.

Que grande sacanagem é essa invenção brasileira chamada banheiro de empregada. Já repararam que não tem pia? Será que empregadas não escovam os dentes nem lavam as mãos?
….
Não quero um livro que eu não consiga largar. Quero um livro que eu tenha vontade de voltar, algo a esperar durante os horas chatas do dia. Saber que sim, tenho que fazer isso e isso e isso, mas que depois, poderei deitar na minha cama e finalmente retomar a leitura, reencontrar os personagens, torcer, rir, chorar, morrer de raiva. Eu quero um livro que não se leia numa sentada, mas um que me acompanhe por dias, para atenuar a falta de imaginação da vida cotidana.

Não é lindo pensar que em algum lugar está alguém está abrindo pela primeira vez um livro que você ama?

Atualmente meu único projeto pessoal é pagar os boletos.

Estou faltando direto ao pilates. Mas vou me emendar. Vejo fotos no instagram de pessoas que fazem exercícios e fico pensando: quero ser como elas? Pessoas suadas, sorriso trincado, chapadas de endorfina com um olharzinho meio maníaco? Acho que não.

Como aguentar o tranco em 2017? Vou fazer uma lista de ações e aceito sugestões.

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os livros da minha estante (e do meu kindle) – Retrospectiva 2016

 

Livros lidos: 90

Livros comprados: 112

Média de 174,00 por mês gastos em livros

Número de páginas lidas: 25.745

Média de páginas lidas por dia: 70

Último livro comprado: Todos os Contos, Clarice Lispector

Livro mais longo: Cidade em chamas, 1040 páginas

Livro mais curto: Sejamos todos feministas, 36 páginas

Gênero principal: Ficção (sempre, sempre, sempre)

Primeiro livro lido: Pássaro no Paraíso, Joyce Carol Oates

Último livro lido: Manual de limpeza de um monge budista, Keisuke Matsumoto

Os Melhores de 2016 (em ordem alfabética)

A amiga genial,

A história do novo sobrenome,

Cidade em chamas

Euforia

Gigantes adormecidos

Joyland

Linha M

Manual de limpeza de um monge budista,

Mr. Mercedes,

O último adeus,

Os veranistas,

Solteirona

Uma vida pequena

 

Menções honrosas

A Descoberta das Bruxas (todo mundo amou a história da bruxa e do vampirão mais do que eu… vamos ver se em 2017 eu engato as continuações)

Ana vestida de sangue (livro que me deu mais medinho)

A geografia de nós dois (livrinho teen mais legal do ano)

Gratidão (Oliver Sacks é <3)

 

E o livro do ano é… Uma vida pequena!! Não por ser o melhor, mas foi o que mais me mobilizou, do qual mais falei com as pessoas, até com meu professor de pilates! Rendeu até desabafos no inbox!

 

Em 2017 eu vou ler:

E o vento levou (terminar de ler, na verdade. Atlanta está quase caindo e Scarlett vai voltar pra Tara destruída)

Tudo o que aparecer da Elena Ferrante

Meu nome é Lucy Barton

Missoula Jon Krakauer

As águas vivas não sabem de si

Vozes de Tchernóbil

E quero ler Todos os Contos da Clarice, talvez num esquema um por dia, postando alguma coisinha sobre, tipo um projeto literário.

 

Minha única meta para 2017 é fazer a fila de livros comprados andar. Ler o que eu já comprei, passar uns 6 meses sem comprar novos livros (hahahahaha). Acho que é possível, porque não compro por impulso, só tenho livros que quero realmente ler.

Fora isso, não tenho meta de leitura, nem objetivos definidos, nem quero chegar a algum lugar com as leituras que escolho. Só quero ler o máximo que eu puder e que eu tiver vontade. E quero escrever sobre alguns livros aqui.

 

A lista completa das leituras de 2017 está aqui:

  1. Pássaro no Paraíso, Joyce Carol Oates 464 páginas Objetiva
  2. Exclusiva, Annalena McAfee 346 páginas Companhia das Letras
  3. Sempre em movimento, Oliver Sacks 405 páginas Companhia das Letras
  4. A Coroa Escarlate, Cinda Williams Chima 455 páginas Suma
  5. O trono do Lobo Gris, Cinda Williams Chima 457 páginas Suma
  6. Sonhos partidos, M.O.Walsh 280 páginas Intrinseca
  7. Revival, Stephen King 385 páginas Suma
  8. Uma luz entre nós, Laura Linne Jackson 222 páginas Intrinseca
  9. Vá, coloque um vigia, Harper Lee 209 páginas José Olympio
  10. A Descoberta das Bruxas, Deborah Harkness 749 páginas Rocco
  11. A Garota da Banda, Kim Gordon 278 páginas Rocco
  12. Difamação, Renée Knight 273 páginas Intrinseca
  13. O pessegueiro, Sarah Addison Allen 228 páginas Planeta
  14. A improvável teoria de Ana & Zak, Brian Katcher 255 páginas Rocco
  15. Mosquitolândia, David Arnold 298 páginas Intrínseca
  16. Ana de Amsterdam, Ana Cássia Rebelo 157 páginas Biblioteca Azul
  17. Yaqui Delgado quer quebrar a sua cara Meg Medina 215 páginas Intrínseca
  18. A Grande Magia, Elizabeth Gilbert 180 páginas Objetiva
  19. Namorado de aluguel, Kasie West 279 páginas Verus
  20. Encrenca, Non Pratt 365 páginas Verus
  21. Mil pedaços de você (Firebird), Claudia Gray 304 páginas Casa dos Livros
  22. A amiga genial, Elena Ferrante 278 páginas Biblioteca Azul
  23. E se for você, Rebeca Donovan 416 páginas Globo Alt
  24. DUFF, Kody Kiolinger 326 páginas Globo Alt
  25. Tudo e todas as coisas, Nicola Yoon 304 páginas Novo Conceito
  26. O Acordo, Elle Kennedy 360 páginas Paralela
  27. Um, Dois E Já, Inés Bortagaray 41 páginas Cosac Naify
  28. Cidade em chamas Garth Risk Hallberg 1040 páginas Companhia das Letras
  29. A geografia de nós dois Jennifer E. Smith 261 páginas Galera
  30. Três coisas sobre você Julie Buxbaum 303 páginas Arqueiro
  31. Linha M, Patti Smith 213 páginas Companhia das Letras
  32. Kindred Spirits, Rainbow Rowell 96 páginas
  33. Beleza perdida, Ami Harmon 384 páginas Verus
  34. Euforia Lily King 219 páginas Globo Livros
  35. O Caderninho de Desafios de Dash & Lily David Levithan e Rachel Cohn 248 páginas Galera
  36. Doce procura Kevin Milne 300 páginas Record
  37. Baía da Esperança Jojo Moyes 393 páginas Intrínseca
  38. Sejamos todos feministas Chimamanda Ngozi Adichie 36 páginas Companhia das Letras
  39. A poderosa chefona, Tina Fey 296 páginas Best Seller
  40. O nome da estrela, Maureen Johnson 311 páginas Fantástica Rocco
  41. Joyland, Stephen King 288 páginas Suma
  42. Meu Romeu, Leisa Rayven 423 páginas Globo Livros
  43. Gratidão, Oliver Sacks 43 páginas Companhia das Letras
  44. Ana vestida de sangue Kendare Blake 263 páginas Verus
  45. Por favor, ignore Vera Dietz , A.S. King 270 páginas Novo Século
  46. A história do novo sobrenome, Elena Ferrante 477 páginas Biblioteca Azul
  47. Além-mundos Scott Westerfeld 553 páginas Galera
  48. O Ano em que Disse Sim, Shonda Rimes, 256 páginas Best Seller
  49. A caderneta vermelha Antoine Laurain 126 páginas Alfaguara
  50. A canção de ninar Sarah Dessen 309 páginas Seguinte
  51. Talvez um dia Colleen 376 páginas Galera
  52. Só Garotos, Patti Smith 225 páginas Companhia das Letras
  53. Destinos e fúrias Lauren Groff 368 páginas Intrínseca
  54. Faça boa arte, Neil Gaiman 80 páginas Intrínseca
  55. Eu sou as escolhas que faço, Elle Luna 176 páginas Sextante
  56. Uma vida pequena Hanya Yanagihara 822 páginas Record
  57. Ana Cristina Cesar, o sangue de uma poeta Italo Moriconi 84 páginas HB
  58. A Anatomia De Um Coração Jenn Bennett 340 páginas Vergara & Riba
  59. O cara mais esperto do facebook Abud Said 96 págumas Editora 34
  60. Essa luz tão brilhante Estelle Laure 202 páginas Arqueiro
  61. O navio das noivas Jojo Moyes 384 páginas Intrínseca;
  62. Dias de abandono, Elena Ferrante 184 páginas Biblioteca Azul
  63. Uma vida no escuro, Anna Lindsey 207 páginas Intrínseca
  64. Hogwarts: Um guia imperfeito e impreciso J.K. Rowling 80 páginas Pottermore from J.K. Rowling
  65. Histórias de Hogwarts: proezas, percalços J.K. Rowling 68 páginas Pottermore from J.K. Rowling
  66. Histórias de Hogwarts: poder, política J.K. Rowling 63 páginas Pottermore from J.K. Rowling
  67. Por um sentido na vida, Amy Purdy 259 páginas Agir;
  68. Exames de empatia Leslie Jamison 296 páginas Globo
  69. O erro, Elle Kennedy 248 páginas Paralela
  70. Solteirona Kate Bolick 307 páginas Intrínseca
  71. Mercedes, Stephen King 446 páginas Suma
  72. Achados e Perdidos, Stephen King 393 páginas Suma
  73. O último turno, Stephen King 380 páginas Suma
  74. O último adeus, Cynthia Hand 352 páginas DarkSide
  75. Os veranistas, Emile Straub 288 páginas Rocco
  76. Novembro 9 Colleen Hoover 310 páginas Galera
  77. Amanhã você vai entender Rebecca Stead 173 páginas Intrínseca
  78. Vivian contra a américa parte 2 Katie Coyle 224 páginas Agir Now;
  79. Não me lembro de nada, Nora Ephron 139 páginas Rocco
  80. Harry Potter e a criança amaldiçoada J.K. Rowling 352 páginas Rocco
  81. O Garoto dos Meus Sonhos, Lucy Keating 264 páginas Globo Alt
  82. Sway, Kat Spears 256 páginas Globo Alt
  83. Apenas um dia, Gayle Forman 386 páginas Novo Conceito
  84. Apenas um ano, Gayle Forman 340 páginas Novo Conceito
  85. Gigantes adormecidos, Sylvain Neuvel 316 páginas Suma
  86. À procura de Audrey, Sophie Kinsella 302 páginas Galera
  87. Redoma, Meg Wolitzer 234 páginas Globo Alt
  88. Sobrenatural, Paige McKenzie 270 páginas Fábrica231
  89. Manual de limpeza de um monge budista, Keisuke Matsumoto 118 páginas Planeta
  90. Nem tudo será esquecido Wendy Walker 270 páginas Editora Planeta

 

 

 

 

 

 

 

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Às vezes eu quero lembrar de tudo

Às vezes eu quero lembrar de tudo.

Qual era o nome da menininha, filha daquela vizinha do primeiro andar? Não lembro, mas sei que agora ela já está grande e sua cachorra teve um tumor e morreu.

Quero lembrar que o padeiro passava buzinando de manhã e de tarde e que todo mundo comprava. Que às vezes o pão acabava antes do fim da rua.

Quero lembrar que sempre faltava luz quando chovia e em cada cômodo já  tinha uma vela separada. E que essas velas foram acesas muitas e muitas vezes.

Às vezes eu quero lembrar de tudo.

Indo muito atrás, quero lembrar da estampa de brocado do sofá da dona Alda, dos arranjos de frutas no Natal, das portas abertas durante as festas, dos carnavais solitários, do prédio vazio, como que abandonado, do portão quebrado.

Às vezes eu quero lembrar de tudo, até do circo iluminado que vi na praça onze no dia da nossa mudança, há muitos e muitos anos atrás.

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O parente perfeito

A ceia de natal se aproxima e com ela surgem os velhos fantasmas de natal que nos assombram nessa época. Não só o tio do pavê, a atual-futura-ex-mulher do pai, o namoradinho folgado da prima mais nova e os agregados que a gente não entende o que estão fazendo ali. Um dos fantasmas pouco mencionados e absolutamente apavorantes que temos que encarar no natal é o parente perfeito. O parente perfeito pode ser um primo, um irmão, o enteado de alguém. O parente perfeito é da nossa geração ou mais novo. Alguém com quem você costumava brincar e hoje só tem vontade de revirar os olhos quando ele é mencionado pelas tias fritando rabanada na cozinha. E o parente perfeito é muito mencionado. Só se fala dele na cozinha, na sala, na mesa de jantar. Ele é uma lista de resoluções de ano-novo ticada. O parente perfeito passou no concurso, se formou em medicina, comprou apartamento. O parente perfeito casou numa cerimônia íntima e você não foi convidado. O parente perfeito escala montanhas, faz duas horas de hot yoga por dia, resgata cãezinhos perdidos, só come orgânicos. O parente perfeito sabe o que irá fazer em 2017, 2018, 2019. Vai escalar o Everest, ganhar uma medalha olímpica, empreender (com sucesso), inventar um prato gourmet. O parente perfeito largou tudo para viver seu sonho, vai tirar um ano sabático. O parente perfeito nem tem Facebook porque está conversando com outras pessoas sem wifi. Sorte a nossa, que somos atualizados de suas conquistas só quando encontramos a tia Marta, que adora contar as últimas do nosso parente perfeito. Enquanto isso… a gente tá aqui, desse jeito mesmo. Torcendo pra ceia ser logo servida e acabar essa tortura. Nossa sorte é que, na maioria das vezes, somos poupados de conviver com o parente perfeito nessa época. Ele é tão perfeito que consegue escapar da ceia de natal na casa da tia Zélia sem ofender ninguém. Nem isso a gente é capaz de fazer.

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Já conversou com seu cérebro hoje?

Um dor de cabeça me lembrou que eu tenho um cérebro.

Me alertei pensando em cuidar mais do meu cérebro que eu uso tanto e que me dá tanta coisa (inclusive dor de cabeça). Acho que nunca pensei nele, na verdade. Sempre nos bastidores, fazendo o show acontecer, mas sem ganhar nenhum crédito.

Do coração todo mundo fala. Mas do cérebro, um órgão tão complexo, pouco se comenta. Os hemisférios, os lobos cerebrais, o encéfalo, o córtex, o hipotálamo, a área de Broca, o corpo caloso, todas as artérias, vasos e ramificações, todos os neurônios, as sinapses, os neurotransmissores. Milhares de conexões, impulsos elétricos, mini fogos de artifício fazendo tudo o que sou acontecer.

Todas as minhas memórias, a capacidade de falar, de ler e escrever, de entender as palavras e as imagens. Todos os pensamentos, sentimentos, desejos, sensações. Tudo isso é o cérebro. Tão presente que parece que não existe.

Menos quando dói.

Agradeci pelo bom trabalho e tomei uma aspirina.

 

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dias cinzentos

Não sei por quê acordei pensando na minha faculdade. Comunicação Social na UFRJ. 1995.

Na primeira aula tivemos que ler um texto (xerox) de um livro do FHC. Se eu soubesse o que sei hoje, encararia como um sinal.

Nos primeiros dias, todo mundo estava eufórico, animado em começar na faculdade e se sentindo o máximo por ter passado num dos cursos mais concorridos da UFRJ. Em pouco tempo a animação foi embora e o povo caiu na real. A maioria, vinda de colégios particulares, tomou um choque ao encarar as péssimas condições da Universidade (e do Brasil) no governo FHC. Nem papel higiênico tinha nos banheiros!

Teto da sala de aula caindo por causa de uma infestação de cupins. Professores se aposentando, professores se suicidando, zero chance de bolsas, estágios ou monitorias dentro da faculdade. Greves e mais greves.

Foram tempos confusos. Todo mundo disperso, tentando encontrar um caminho rumo ao futuro, depois que ficou claro que o futuro não seria entregue de bandeja ali no campus da Praia Vermelha da UFRJ só porque você passou no vestibular. Não demorou muito, rolou uma debandada geral: gente trocando de curso, outros arrumando estágios e empregos, mal frequentando as aulas, o curso inteiro meio empurrado com a barriga. O futuro era lá fora.

Tanta gente jovem, cheia de sonhos numa década cinzenta, em que não havia muita esperança, só incerteza. De minha parte, vi que tinha que sair daquele manicômio o mais rápido possível e foi o que fiz. O sol só começou a surgir em 1999 quando me formei, adotei o Ulisses e comecei a trabalhar.

Na verdade eu sei porque me lembrei de tudo isso. Acho que aqueles dias cinzentos estão de volta. O clima geral anda bem parecido.

abricós da Praia Vermelha

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dever de casa

Frida Kahlo – as frutas são só frutas – a coruja é… uma coruja

Eu já li muitos livros que não entendi. Principalmente quando era mais nova, lia muitos livros que achava que tinha que ler, clássicos principalmente, e não entendia uma linha. Nem lembro do que tratavam.
Já fui a muitas exposições em que as obras eram como imagens infinitas passando diante dos meus olhos sem que nenhuma se fixasse na minha retina.
Já cantei muitas músicas sem atentar ao que elas queriam dizer.
Já dormi no meio de muitos filmes.
Poesia, então… a maioria eu não alcancei.
Já li muitos livros que guardei só pra mim, nunca comentei com ninguém.
Tanta coisa que não me disse nada, não me inspirou nada, não me comoveu.
E tanta coisa me marcou de um jeito que fica difícil expressar.

Parece que agora é quase impossível consumir qualquer coisa sem fazer um comentário. De tudo a gente precisa extrair um sentido. É preciso fazer uma relação com outro livro/filme/série, entender as referências, descascar a cebola, camada por camada, extrair todos os significados.
Parece que o lazer virou pós-graduação, tem que estar com as séries em dia (ou o livro ou o filme do momento), ler uma pilha de textos de apoio e material suplementar, fazer pesquisa e escrever 30 linhas para segunda-feira.
Às vezes eu só quero ler um pouquinho antes de dormir ou ver uma série sem compromisso, só para descansar as ideias. Só isso.
Cansativo compreender tudo e viver de insight em insight.
Onze da noite, dia inteiro de trabalho e ainda tenho que pôr a cabeça para pensar para entender as referências ocultas na maratona do seriado? Ah, não.

Os livros que mais me marcaram o fizeram porque eu não estava buscando nada neles além de uma boa leitura. E muito do que me marcou, demorei anos para elaborar e transformar em algo que pode ser considerado meu.
Então eu vejo uma série e não quero analisar. Leio um livro e não quero resenhar.
Nem tudo tem que ter significado. Quando foi que o entretenimento virou dever de casa?

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