Ontem fui ao CCBB. Começar a semana vendo pouquinho de beleza para energizar. Fui ao banheiro antes da exposição e vi uma mulher escovando os dentes no banheiro. Nada de mais, a não ser pelo fato que ela colocava o sabão líquido da pia na escova. Ela escovava com cuidado e volta e meia colocava mais sabão. Magra, maltratada, mas roupas estavam limpas e aos seus pés duas sacolas cheias, estufadas de coisas.
Fui ver a exposição e na volta voltei ao banheiro. Ela continuava lá, dessa vez, trançando os cabelos. Bem tranquila, como se tivesse todo tempo do mundo. Talvez tenha mesmo.
Talvez ela precise preencher seus dias sem ter onde ficar. E talvez aquele banheiro no CCBB seja um lugar seguro para ela ficar por algum tempo. Talvez os funcionários não se importem e nem a coloquem para fora, como vemos tantos lugares fazerem com pessoas indesejadas.
Penso na Biblioteca Parque fechada. Um refúgio para tanta gente, inclusive para quem não tinha para onde ir. O dia é longo para quem não tem casa. Se você mora na rua como você faz para tomar banho, ir ao banheiro, escovar os dentes? Como você mantém o mínimo de dignidade?
A exposição era linda, mas a imagem que ficou foi dessa mulher, tentando se cuidar no meio da precariedade. Nunca imaginei alguém escovando os dentes com sabão líquido por falta de pasta de dente. Mas existe. Todo mundo está lutando sua própria luta e fazendo o melhor que pode. Fora da bolha é uma vastidão sem tamanho.

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