Às vezes eu quero lembrar de tudo

Às vezes eu quero lembrar de tudo.

Qual era o nome da menininha, filha daquela vizinha do primeiro andar? Não lembro, mas sei que agora ela já está grande e sua cachorra teve um tumor e morreu.

Quero lembrar que o padeiro passava buzinando de manhã e de tarde e que todo mundo comprava. Que às vezes o pão acabava antes do fim da rua.

Quero lembrar que sempre faltava luz quando chovia e em cada cômodo já  tinha uma vela separada. E que essas velas foram acesas muitas e muitas vezes.

Às vezes eu quero lembrar de tudo.

Indo muito atrás, quero lembrar da estampa de brocado do sofá da dona Alda, dos arranjos de frutas no Natal, das portas abertas durante as festas, dos carnavais solitários, do prédio vazio, como que abandonado, do portão quebrado.

Às vezes eu quero lembrar de tudo, até do circo iluminado que vi na praça onze no dia da nossa mudança, há muitos e muitos anos atrás.

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